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Personalidade e desenvolvimento: teorias, estágios e factores influenciadores

  Nota: Este artigo é o terceiro de uma série sobre Introdução à Psicologia, baseado no manual de Psicologia Geral aplicada em AP. Aqui abordamos os conceitos fundamentais de personalidade, as principais teorias (Freud, Jung, Rogers, Maslow, Fromm) e o desenvolvimento cognitivo, psicossocial, psicossexual e moral. Conceito de Personalidade O termo personalidade "vem do latim persona que originalmente significava máscara" (CARDOSO, FROIS & FACHADA, 1993, p. 370) . Esta visão serviu para definir personalidade do ponto de vista externo. Mais tarde, o conceito de personalidade passou a referir as qualidades que estão por detrás da máscara, ou seja, as qualidades íntimas e pessoais do indivíduo. Neste sentido, Pestana & Páscoa (1995) entendem por personalidade o conjunto estruturado das características inatas (herdadas), das aquisições do meio (sociocultural) e da história das experiências vividas (desenvolvimento) que organizam e determinam o comportamento d...

Personalidade e desenvolvimento: teorias, estágios e factores influenciadores

 


Nota: Este artigo é o terceiro de uma série sobre Introdução à Psicologia, baseado no manual de Psicologia Geral aplicada em AP. Aqui abordamos os conceitos fundamentais de personalidade, as principais teorias (Freud, Jung, Rogers, Maslow, Fromm) e o desenvolvimento cognitivo, psicossocial, psicossexual e moral.

Conceito de Personalidade

O termo personalidade "vem do latim persona que originalmente significava máscara" (CARDOSO, FROIS & FACHADA, 1993, p. 370). Esta visão serviu para definir personalidade do ponto de vista externo. Mais tarde, o conceito de personalidade passou a referir as qualidades que estão por detrás da máscara, ou seja, as qualidades íntimas e pessoais do indivíduo.

Neste sentido, Pestana & Páscoa (1995) entendem por personalidade o conjunto estruturado das características inatas (herdadas), das aquisições do meio (sociocultural) e da história das experiências vividas (desenvolvimento) que organizam e determinam o comportamento do indivíduo.

A personalidade é um conjunto de características psicológicas que, desenvolvidas ao longo da vida e dotadas de uma relativa continuidade, nos diferencia uns dos outros (apesar de muitas semelhanças que possamos apresentar).

Factores gerais que influenciam a personalidade

  • Hereditariedade – Aquilo que o indivíduo recebe como herança física transmitida pelos seus progenitores, no momento da gestação. A carga genética do indivíduo é capaz de estabelecer o seu potencial, podendo ou não se desenvolver. Por exemplo, a inteligência pode ser um factor genético, mas também pode ou não ser desenvolvida, dependendo das condições que o ambiente proporciona.
  • Crescimento orgânico – O aspecto físico que considera o processo dinâmico que se apresenta visivelmente pelo aumento do tamanho corporal.
  • Maturação neurofisiológica – O que torna possível determinado padrão de comportamento, ou seja, existe um equipamento neurofisiológico que passa por evolução determinada por factores biológicos.
  • Meio – Conjunto de influências e estimulações ambientais que podem alterar os padrões de comportamento do indivíduo.
  • Meio social – A família é fundamental neste ponto, principalmente nos primeiros anos de vida, pelas características e qualidade das relações existentes.
  • Meio intra-uterino – Ainda no útero da mãe, a criança recebe estímulos de diversa natureza.
  • Experiências pessoais – A complexidade das relações familiares vai influenciar as capacidades cognitivas, linguísticas, afectivas, de autonomia e de construção de valores das crianças e jovens.

Teoria da Personalidade de Sigmund Freud

Freud foi o primeiro a organizar, de facto, o conceito de teoria da personalidade. A psicanálise é o método desenvolvido por Sigmund Freud em 1896, cujas bases de estudos se fundamentam no inconsciente.

Níveis de vida mental

Para Freud, a vida mental está dividida em dois níveis: o Inconsciente (dividido em pré-consciente) e o Consciente.

  • Inconsciente – Contém todos os impulsos, desejos ou instintos que estão além da consciência, mas que, no entanto, motivam a maioria de nossos sentimentos, acções e palavras.
  • Pré-consciente – Onde estão todos os elementos que não são conscientes, mas podem se tornar conscientes prontamente ou com alguma dificuldade.
  • Consciente – Único nível da vida mental que está disponível para nós. São aqueles elementos mentais na consciência em determinado ponto no tempo.

Instâncias da Mente (ID, Ego e Superego)

ID – É a parte mais primitiva da mente, na essência da personalidade e totalmente inconsciente. É o aspecto da personalidade associado aos instintos, funcionando como uma fonte psíquica que opera através de pulsões e desejos inconscientes. O ID serve ao princípio do prazer.

Ego – Diferentemente do que ocorre no ID, o Ego é a parte racional da nossa personalidade e controla os instintos. É a única região da mente que tem contacto com a realidade. É o filtro mediador e balanceador entre o ID e os estímulos externos. O Ego opera no que é real e busca satisfazer os desejos através de um objecto apropriado.

Superego – O ID encontrou o seu oposto no que diz respeito aos valores morais. É dever do Superego trabalhar para que a perfeição seja atingida através do que é correcto perante a sociedade. É função do Superego reprimir impulsos contrários às regras.

Teoria da Personalidade de Carl Gustav Jung

O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung também partia do pressuposto da existência do consciente e do inconsciente. Porém, para Jung, existe também o conceito de inconsciente colectivo. Esse inconsciente não se trata só do que vivenciamos, mas de tudo que a humanidade teve como experiência.

Jung acreditava que cada um de nós é motivado não somente por experiências reprimidas, mas também por certas experiências de tom emocional herdadas de nossos ancestrais. Essas imagens herdadas compõem o que Jung chamou de Inconsciente Colectivo – elementos que nunca experimentamos de modo individual, mas que chegaram até nós pelos nossos ancestrais.

Níveis da Psique

  • Consciente – De acordo com Jung, as imagens conscientes são aquelas percebidas pelo ego. Jung entendia o ego como o centro da consciência, mas não o centro da personalidade.
  • Inconsciente pessoal – Abrange todas as experiências reprimidas, esquecidas ou subliminarmente percebidas de um indivíduo.
  • Inconsciente colectivo – Possui raízes no passado ancestral de toda a espécie. Os conteúdos psíquicos são herdados e transmitidos de uma geração para a seguinte como potencial psíquico.

Teoria Humanista (Abraham Maslow)

Os psicólogos humanistas faziam objeções à psicanálise e ao behaviorismo, argumentando que esses sistemas ofereciam uma imagem da natureza humana demasiadamente restrita e negativa. As teorias dos humanistas enfatizam a força e a aspiração humanas, o livre-arbítrio consciente e a realização do nosso potencial.

Maslow estipulou que a sua abordagem sobre a personalidade avaliaria os melhores representantes da espécie humana. Sua teoria da personalidade não tem origem em histórias de casos de pacientes clínicos, mas em pesquisas com adultos criativos, independentes, auto-suficientes e realizados. Maslow concluiu que cada pessoa nasce com as mesmas necessidades instintivas que nos capacitam a crescer, a nos desenvolver e a realizar nossos potenciais.

A hierarquia das necessidades de Maslow

Maslow propôs uma hierarquia de necessidades inatas que activam e direccionam o comportamento humano. Elas possuem um componente hereditário, mas podem ser influenciadas pelo ambiente.

  • Necessidades fisiológicas – Relacionam-se com o ser humano como ser biológico: necessidade de manter-se vivo, respirar, comer, descansar, beber, dormir, ter relações sexuais.
  • Necessidades de segurança – Vinculadas com a necessidade de sentir-se seguro: sem perigo, em ordem, com segurança, conservar o emprego.
  • Necessidades sociais – Necessidade de manter relações humanas com harmonia: sentir-se parte de um grupo, receber carinho e afecto.
  • Necessidades de estima – Dois tipos: o reconhecimento das nossas capacidades por nós mesmos e o reconhecimento dos outros da nossa capacidade.
  • Necessidades de auto-realização – Também conhecidas como necessidades de crescimento. Incluem a realização, aproveitar todo o potencial próprio, ser aquilo que se pode ser.
  • Necessidades cognitivas – De conhecer e entender. Aparecem no final da infância e início da meninice e são expressas pela curiosidade natural das crianças.
  • Necessidades estéticas – Algumas pessoas carecem de experiências esteticamente prazerosas para o desenvolvimento completo da personalidade.

Teoria de Erich Fromm

Fromm acreditava que não éramos moldados apenas por forças biológicas, mas também por forças sociais e culturais que afectam o indivíduo numa cultura, bem como por forças universais que vêm influenciando a humanidade durante toda a sua história. Ele sugeriu que, nos eventos históricos, podemos encontrar as raízes da solidão, da insignificância e do isolamento humano.

Desenvolvimento Cognitivo – Jean Piaget

Falar de desenvolvimento cognitivo é falar do desenvolvimento da capacidade mental do indivíduo para pensar, interpretar, compreender, analisar e resolver problemas. "O desenvolvimento ocorre porque o organismo amadurece e sofre influência do meio físico e social" (Piaget).

Estágios do desenvolvimento cognitivo (Piaget)

  • Estágio sensório-motor (0-2 anos) – A criança começa a explorar e conhecer o ambiente através dos seus sentidos. Ao final desta fase, a criança será capaz de compreender, por exemplo, que a mãe continua existindo mesmo quando está fora do seu alcance.
  • Estágio pré-operacional (2-6 anos) – Estabelecimento da noção de objecto sem que o mesmo esteja próximo; habilidade de imaginação e imitação dos objectos.
  • Estágio operatório concreto (7-11 anos) – Transição entre a acção e as estruturas lógicas mais gerais. Há operações matemáticas e infralógicas; período de escolarização; diminui o uso dos sensores.
  • Estágio operatório formal (12 anos em diante) – As crianças são capazes de pensar racionalmente e não precisam que os objectos pensados estejam presentes. São capazes de pensar em todas as relações previamente existentes.

Desenvolvimento Psicossocial – Erik Erikson

Erik Erikson criou uma teoria destacando a adolescência como etapa fundamental do desenvolvimento humano, dividindo a formação da identidade em estágios ("Oito idades do homem"):

  • Confiança vs Desconfiança básicas – Relação bebé-mãe nos primeiros 2 anos de vida. O bebé experimenta acções que devem gerar segurança e confiança.
  • Autonomia vs Vergonha e Dúvida – Do 2º ao 3º ano, a criança tem necessidade de autocontrolo e aceitar controlo dos outros.
  • Iniciativa vs Culpa – Dos 3 aos 6 anos, com mais autonomia, a criança explora mais o mundo usando o corpo e a imaginação.
  • Diligência vs Inferioridade – Geralmente quando a criança entra para o ensino escolar, as tarefas se tornam mais complexas.
  • Identidade vs Confusão – Entre os 12 e 18/20 anos, há uma crise fundamental: o indivíduo adquire uma identidade psicossocial.
  • Intimidade vs Isolamento – Até os 30 anos, os jovens adultos constroem relações efectivas de intimidade.
  • Hiperactividade vs Estagnação – Dos 30 aos 60 anos, o indivíduo quer criar, produzir sua vida e seu legado.
  • Integridade vs Desespero – A última idade, caracterizada pela avaliação do que o indivíduo fez ao longo da vida.

Desenvolvimento Psicossexual – Sigmund Freud

  • 1ª Fase (Oral) – 0 a 1 ano – O desenvolvimento da personalidade é centrado na boca do bebé, que fica satisfeito ao colocar todo tipo de coisa em sua boca.
  • 2ª Fase (Anal) – 2 a 4 anos – O prazer é centrado no ânus; a criança sente grande prazer em defecar e aprende a controlar seus esfíncteres.
  • 3ª Fase (Fálica) – 3 a 5 anos – Caracteriza-se pelo foco nas áreas genitais, momento em que as crianças se tornam conscientes das diferenças sexuais.
  • 4ª Fase (Latência) – 6 a 14 anos – Caracteriza-se por um deslocamento do prazer da sexualidade para actividades socialmente aceitas.
  • 5ª Fase (Genital) – 14 anos em diante – O indivíduo desenvolve um forte interesse sexual no sexo oposto e busca relacionar-se amorosamente com outras pessoas.

Desenvolvimento Moral – Piaget e Kohlberg

O psicólogo Piaget afirmou que o desenvolvimento moral se encontra ligado ao desenvolvimento cognitivo. Kohlberg descreveu o desenvolvimento moral da criança, afirmando que atravessa três níveis e subníveis, totalizando seis estágios:

  • Estágio 1 – Orientação para o castigo e a obediência: as crianças avaliam as más e boas acções a partir das recompensas e castigos.
  • Estágio 2 – Orientação para o "bom menino/boa menina", evitando comportamentos inaceitáveis.
  • Estágio 3 – Orientação para a ordem e a lei: a criança aceita que a sua aceitação na sociedade está condicionada à obediência à lei.
  • Estágio 4 – Orientação para o contrato social: a criança vê a sociedade como fonte da lei, vale a protecção dos direitos individuais.
  • Estágio 5 – Orientação para os princípios éticos universais: o grau elevado do desenvolvimento moral, o que vale é a vida humana, que tem primazia sobre todas as coisas.

📌 Fontes utilizadas neste artigo:
Cardoso, Frois & Fachada (1993) – Rumos da Psicologia
Pestana & Páscoa (1995) – Dicionário Breve de Psicologia
Myers (1999) – Introdução à Psicologia Geral
Abrunhosa & Leitão (2009) – Psicologia B
Sprintall & Sprintall (2000) – Psicologia Educacional
Piletti (1995) – Psicologia Educacional


📚 Este artigo faz parte de uma série
👉 Leia a parte anterior: Bases biológicas do comportamento: sistema nervoso, neurónio e genética

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